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Dicas de cultura

Cinema - Anticristo

De: 2/10/2009 a 2/11/2009


A natureza do mal

“Anticristo”, chocante e perturbador filme do diretor dinamarquês Lars von Trier, estreia hoje na CapitalDesta vez, Lars von Trier foi longe demais: no polêmico Anticristo (2009), o cineasta dinamarquês provoca exibindo cenas de sexo explícito e, principalmente, sequências de uma violência inaudita. Mas o que perturba mais no filme que entra hoje em cartaz na Capital é a maneira como o diretor mistura cinema de terror, teologia, misticismo pagão e psicanálise para afirmar: “Aqui reina o caos”.



Exibido neste ano em Cannes – festival que premiou Von Trier com a Palma de Ouro em 2000 por Dançando no Escuro –, Anticristo foi recebido com perplexidade pelo público e pela crítica. Um dos maiores realizadores do cinema contemporâneo, o dinamarquês costuma capitalizar o perfume de escândalo que cerca algumas de suas obras – a repercussão de seu novo trabalho, no entanto, tem feito tanto barulho que quase abafa o que Anticristo possa dizer. Von Trier admite que o longa foi rodado durante uma “crise infernal”: “Há dois anos, sofri de depressão. Foi uma nova experiência para mim. Tudo, sem exceção, parecia sem importância, trivial. Não conseguia trabalhar. Seis meses depois, apenas como um exercício, escrevi um roteiro. Foi um tipo de terapia, mas também uma procura, um teste para ver se eu ainda faria algum filme”, escreveu a respeito de Anticristo.



A história concentra-se em dois personagens sem nome, um casal que enfrenta uma tragédia: o filho pequeno morre ao cair de uma janela enquanto os dois faziam sexo – sequência filmada e montada com virtuosismo por Von Trier e sonorizada com a plangente ária Lascia ch’Io Pianga, de Haendel. A fim de enfrentar a dor interminável da mulher (Charlotte Gainsbourg), o marido terapeuta (Willem Dafoe) leva a mãe enlutada para passar uma temporada em uma cabana enfurnada na mata – a ideia é superar o que seria o maior medo dela, revelado em visões daquele lugar, chamado Éden. Grande erro: o isolamento em contato com a natureza exuberante acaba trazendo de volta lembranças da recente estadia no local da mãe e da criança agora morta e despertando na mulher delírios paranoicos que culminam em agressões brutais ao marido e em automutilação.



Filmado com a maestria habitual de Von Trier, com uma fotografia que transforma o cenário natural em uma floresta ao mesmo tempo encantada e sinistra, Anticristo começa como um drama que lembra os filmes de Ingmar Bergman, evolui para uma guerra dos sexos que ecoa as peças do dramaturgo sueco August Strindberg e insinua-se um terror psicológico na linha de O Bebê de Rosemary (1968) e O Iluminado (1980). Anticristo, no entanto, desvia de qualquer rota e mergulha na origem do mal na visão religiosa obscurantista, mesclando-a com a raiz dos temores psicanalíticos do homem em relação à mulher.



No filme, o racional terapeuta não consegue compreender o que realmente aflige sua mulher, que estava envolvida em uma pesquisa sobre a perseguição às bruxas na Idade Média, batizada por ela de “ginocídio” – trocadilho com a palavra genocídio e o radical grego gynos, que significa mulher. Nesse Éden onde reina o caos – conforme Von Trier escreve em um letreiro durante o filme –, Eva surge como a única culpada pela queda da humanidade, tocada pelo fruto do mal. Von Trier sempre fez as mulheres sofrerem como mártires em seus filmes antes da santificação final – Ondas do Destino (1994) termina com o som de sinos tocando no céu depois da morte da protagonista. Ainda que pareça colocar essa misoginia em dúvida, os sinos que dobram em Anticristo são os do inferno do obscurantismo.







ROGER LERINAMultimídiaA atriz francesa Charlotte Gainsbourg interpreta uma mãe que entra em crise após a morte do filho em “Anticristo”ANTICRISTOLars von Trier nas locadoras


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