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Cinema - Vicky Cristina Barcelona

De: 14/11/2008 a 14/12/2008


Woody Allen com pimenta

Filmada sob o sol da Catalunha comédia dramática “Vicky Cristina Barcelona” estréia hoje

Woody Allen costuma dizer que faz sempre a mesma coisa mas seus filmes sempre ficam diferentes um do outro. Vicky Cristina Barcelona, mais recente realização do cineasta americano, ilustra essa sua assertiva.



Ao mesmo tempo síntese dos temas caros representados por Allen em mais de 40 anos de carreira, a comédia dramática que estréia hoje nos cinemas acrescenta à filmografia do veterano realizador um tempero forte e dos mais saborosos.



E esse ingrediente que deu novo um colorido à sua obra Allen encontrou, aos 72 anos, sob o sol e o calor da Espanha e na companhia de dois celebrados atores latinos: o recém-oscarizado Javier Bardem e Penélope Cruz. Eles vivem os personagens que vão conduzir as reviravoltas nas vidas das amigas Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson, em seu terceiro filme com Allen), americanas que chegam a Barcelona para passar férias. Cada qual com um objetivo. Vicky, às vésperas do casamento com um executivo americano, quer apenas aprofundar seus estudos em cultura catalã, deslumbrando-se diante das obras de Gaudí, como a gótica catedral da Sagrada Família e o colorido Parque Güel. Já Cristina está de sangue doce, disposta tão somente a usufruir a fartura de prazeres locais.





Assista ao trailer de "Vicky Cristina Barcelona"



Uma destas atrações se apresenta pessoalmente à dupla. É o pintor Juan Antonio (Bardem), que chega sem rodeios e direto ao ponto: oferece diversão, o melhor da gastronomia e sexo sem compromisso. Cristina topa. Vicky resiste, ou pelo menos pensa que vai resistir à lábia do miúra puro-sangue – um degrau acima do garanhão na escala de sedução. Só que esta ciranda amorosa ganha um reforço inesperado e pra lá de picante, que atende por Maria Elena (Penélope), a vulcânica ex-mulher de Juan, pintora como ele, recém-saída de uma clínica e ainda sob efeito de forte medicação.



Depois de três longas rodados em seqüência na Inglaterra – Match Point, Scoop e O Sonho de Cassandra –, Allen aceitou o convite de produtores espanhóis para trocar de ares e entrou no clima. Se o tempo cinzento da ilha britânica foi um bom cenário para suas tramas de crime e castigo, em Barcelona o diretor reencontrou a inspiração para encenar um de seus temas prediletos, a permanente tensão dos relacionamentos amorosos, sempre observados com um interesse voyeur, ao qual acrescentou ainda um ácido contraponto entre as culturas anglo-saxã e latina. De um lado, personagens movidos por razão, culpa e planejamento metódico; do outro, os que riscam seus destinos guiados por emoção, paixão e improviso – ainda que sob o risco de derrapar no clichê da passionalidade e sensualidade latinas.



Vicky Cristina Barcelona mostra ainda que Allen somou novas referências aos seu trabalho. O diretor, fascinado pelo cinema europeu de mestres como o italiano Fellini e o sueco Bergman, remete agora os trabalhos do francês Truffaut e do espanhol Almodóvar. Do primeiro, nota-se a representação sofisticada dos tortuosos caminhos do amor, sobretudo no delicado registro da aflição de Vicky entre agir com a cabeça ou com o coração.



Do segundo vem o tom cômico, a alta voltagem erótica e o vigor melodramático da atuação de Penélope, a pimenta que faz arder esse banquete ofertado por Woody Allen.









MARCELO PERRONE





Fonte: ZH


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