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Lendo esse artigo, há apenas um mês
atrás, nada levaria a crer que o governo
seria capaz de editar, com a concordância
e o apoio de importantes entidades empresariais,
um programa de incentivos que, basicamente,
utiliza o ICMS para atrair investimentos.
Mais do que um programa, o Fundopem se transformou
no símbolo da política agressiva
de atração de investimentos
do governo passado. Talvez por isso, explique-se
a demora na elaboração das mudanças
que ele sofreu. Na verdade, o fundo já
havia sido modificado em 1998, ainda durante
o governo Britto. O Fundopem foi criado em
1972, através da Lei 6427, mas entrou
em operação apenas em 1987,
sendo um beneficio a fundo perdido até
1998, quando foi aprovada a Lei 11028. A partir
daí, o fundo passou a ser um financiamento
a ser devolvido para o Estado. E é
assim que ele está sendo considerado
pelo governo: um financiamento para capital
de giro em condições favoráveis.
Quem for beneficiado pelo fundo, terá
um financiamento de no máximo 9% do
faturamento bruto incrementai, juros entre
2% e 6%, com prazo de carência de 18
a 36 meses.
Embora tenha dito ser contra os incentivos
fiscais,
o governo do PT acabou por se submeter às
necessidades
da economia e às exigências do
mercado
___Segundo
o coordenador do Sistema Estadual de Atração
e Desenvolvimento de Atividades Produtivas
(Seadap) da Secretaria de Desenvolvimento
e Assuntos Internacionais (Sedai), Miguei
da Costa Franco, as mudanças feitas
em 1998 pretendiam recuperar o potencial estratégico
do fundo de incentivos, que no decorrer dos
anos havia se tornado um produto de varejo,
incentivando qualquer projeto sem nenhuma
visão estratégica de desenvolvimento.
Para provar a sua opinião, Franco informa
que, entre 1988 e 1990, foram favorecidos
32 projetos, num montante de R$ 59 milhões
em benefícios. Entre 1991 e 1994, 134
projetos foram aprovados, concedendo R$ 420
milhões em incentivos. Entre 1995 e
1998, quando as regras do fundo foram alteradas,
458 projetos foram contemplados com incentivos,
num montante de R$ 3,8 bilhões. Isso
sem contar os 639 projetos que foram protocolados
até 97 para obterem o direito de serem
analisados conforme as regras anteriores.

Setor
de bebidas foi grande beneficiado
com Fundopem no governo passado
___Para
Costa Franco, o Fundopem era, anteriormente
às modificações da nova
regulamentação, uma espécie
de reforma tributária particular que
não beneficiava a sociedade e criava
graves distorções concorrenciais.
As modificações pretendem tornar
o programa um instrumento estratégico
de fomento, permitindo incentivos apenas sobre
o ICMS incrementado, diferentemente de alguns
incentivos ligados ao Fundopem especial, apelidado
de Fundopem turbinado, que foi criado no decorrer
do governo passado, permitindo que todo o
ICMS gerado pudesse ser considerado para o
cálculo do incentivo.
___Segundo
o funcionário da Sedai, esse expediente
fez com que várias empresas diminuíssem
o seu recolhimento de ICMS no período
em que usufruíam do incentivo. Essa
lógica fazia com que o Estado perdesse
recursos na mesma proporção
em que aumentava a demanda por serviços,
o que obrigava, por vezes, as próprias
empresas a assumirem determinadas funções
do Estado.

Para Renan Proença o mercado
vai dizer se o programa é atrativo
___Critérios
- Uma das novidades importantes na nova regulamentação
do Fundopem é a definição
de um conjunto de critérios de pontuação
para habilitar os projetos ao financiamento.
As oito faixas de pontuação
(35 a 100 pontos) determinam o percentual
de incentivo sobre o incremento do ICMS, o
prazo de carência, o prazo de fruição
do benefício e o prazo de amortização.
Essa pontuação é definida
na análise do projeto, levando-se em
conta um conjunto de quesitos, como a geração
de empregos, a relação entre
o valor do investimento e o número
médio de empregos adicionais, a diversificação
ou o fortalecimento da matriz produtiva, a
desconcentração da produção
industrial, a melhoria da qualidade ambientar
e a contribuição para o aperfeiçoamento
tecnológico. Para se ter uma idéia,
se uma empresa incrementa em mais de 100%
o número de empregos, já sai
com 20 pontos; um empreendimento na área
da petroquímica, plástica ou
metalúrgica tem 15 pontos assegurados;
se o investimento for feito na metade sul,
em um município em que o PIB industrial
seja inferior ao PIB médio do Estado,
recebe 15 pontos; setores de alta tecnologia
que desenvolvam parceria com universidades
também recebem 15 pontos. Da soma desses
pontos, chega-se à faixa de benefícios
(veja tabela abaixo).
___Empresários
- A regulamentação do Fundopem
foi muito bem recebida pela comunidade empresarial.
O presidente da FIERGS Renan Proença,
participante ativo de toda a discussão
que produziu o programa, acha que o Fundopem
é o principal instrumento de atração
de novos investimentos e se constitui na base
de um piano de desenvolvimento do Estado,
além de instrumentalizá-lo para
a chamada guerra fiscal. 'O governo evoluiu
muito e compreendeu que tem que governar a
partir do interesse de todo o Estado', diz
Proença. Na opinião do presidente
da Fiergs, o Estado está muito mais
competitivo a partir de agora e pode disputar
de igual para igual com os outros Estados.
Proença evita, entretanto, avaliar
o conteúdo do novo Fundopem e acha
que apenas o mercado pode comprovar se o programa
é atrativo ou não.
Modificações no principal
programa de incentivos pretendem
torná-lo um instrumento de fomento
para os setores estratégicos
___Não
é o caso do economista Eric Camarano,
da Pólo RS, que já escreveu
vários artigos cáusticos sobre
o tema. Para ele, o Fundopem é bem-vindo
e tem novidades interessantes, como a criação
dos critérios de pontuação,
o que torna a liberação do incentivo
menos discricionária do que no programa
anterior, quando não havia critérios
escritos para a concessão dos incentivos.
O problema, na opinião do economista
da Pólo, é que o programa não
está relacionado com um plano estratégico,
embora seja possível identificar subjacente
uma determinada visão de desenvolvimento.
Mas a visão subjacente não agrada
nem um pouco a Camarano, que vê no privilegiamento
das atividades intensivas em mão-de-obra,
que geram um maior número de empregos
diretos, mas que, em geral, não contribuem
para a modernização do parque
produtivo, uma escolha pelo atraso da matriz
econômica do Estado. Para reforçar
seu ponto de vista, o economista faz um exercício
comparativo entre a planta da GM e a fictícia
planta de uma fábrica de vassouras
que possa ser implantada em alguma cidade
da Metade Sul. Pelos critérios de pontuação
do novo Fundopem, a fábrica de vassouras
terá melhores condições
nos beneficies do que a GM, embora o empreendimento
da montadora seja um tipo de investimento
que incide sobre uma longa cadeia produtiva
e que, ao final, produz muito mais impacto
na economia do Estado, inclusive sobre a geração
de empregos. O risco, na opinião de
Camarano, é a reprodução
de um cicio que diminua a competitividade
da indústria gaúcha, o que,
no futuro, significará menor capacidade
de inserção na economia globalizada
e, por conseguinte, um processo de decadência
econômica.
___Sobre esse
aspecto, o presidente da Fiergs, Renan Proença,
lembra que é facultado ao Conselho
Diretor do Fundopem autonomia para mudar o
regramento quando for necessário. Por
isso, segundo ele, não haverá
problema de se negociar e flexibilizar as
regras quando o investimento interessar ao
Estado.
Para
Renan Proença, da Fiergs, o governo
evoluiu muito nos onze
meses de gestão e deve começar
a governar a partir dos
interesses de todo o Estado e não da
metade mais um
___Desconcentração
- O coordenador do Seadap não concorda
com Camarano e chama a atenção
para o fato de que os critérios de
pontuação estão bem divididos
e contemplam, inclusive, preocupações
com a modernização do parque
produtivo. Segundo Costa Franco, a geração
de empregos é responsável por
apenas 30% dos pontos possíveis de
serem alcançados. Os outros 70% estão
divididos entre localização
e setores econômicos, sendo que o fator
tecnologia incide sobre 15% dos pontos, e
a complementaridade na matriz econômica,
20%. Para Costa Franco, a tecnologia agregada
pelos novos investimentos é muito importante,
mas não é possível achar
que para localidades com pequeno parque produtivo
não interessem investimentos intensivos
em mão-de-obra.

Eric Camarano: "Vamos incentivar fábricas
de vassouras"
___Já
o diretor técnico da Fundação
de Economia e Estatística (FEEE), Flávio
Fligenspan, entende que a principal vantagem
do novo Fundopem é o seu caráter
desconcentrador dos investimentos. Essa desconcentração,
para o economista da FEEE, revela-se em três
aspectos: há um acesso facilitado para
pequenas e médias empresas, há
um incentivo Para a desconcentração
regional e há critérios que
premiam a desconcentração setorial.
Com o novo programa, será possível
o acesso aos benefícios pelas pequenas
e médias empresas, o que era impossível
na realidade anterior, em que apenas 30 grandes
empresas concentravam 70% do valor incentivado.
Além disso, será premiada a
empresa que se aventurar a investir nas localidades
menos desenvolvidas e serão privilegiados
setores econômicos que não existem
na matriz econômica tradicional ou que
incidem sobre gargalos de abastecimento ou
de tecnologia.

Flávio Fligenspan: "Preservar
a matriz produtiva"
___Fligenspan
lembra que o Fundopem não é
um processo eliminatório, portanto
não há problema que ele valorize
características diferenciadas nos empreendimentos.
Essa situação permitirá,
na opinião do diretor da FEEE, que
projetos de várias áreas sejam
incentivados, desde os que são intensivos
em mão-de-obra até os que são
intensivos em tecnologia. "Todos os projetos
que se adaptem às regras podem usufruir
dos benefícios do programa", informa.
Novo Fundopem revela uma visão de
desenvolvimento
que privilegia setores intensivos em mão-de-obra
___Embora
concorde que é muito importante atrair
empreendimentos inovadores em tecnologia,
Fligenspan diz que uma política de
desenvolvimento prudente não pode desprestigiar
a matriz produtiva tradicional. O exemplo
de Fligenspan é o setor moveleiro,
um dos mais tradicionais do Estado, mas que
tem enormes gargalos na produção
dos aglomerados e produtos de metal, matérias-primas
básicas para o setor. Caso não
se resolva este problema de gargalo, o setor
pode, inclusive, sair do Estado, já
que o grosso da matéria-prima vem de
fora do Estado e o público consumidor
também. O Estado precisa atrair novos
investimentos, mas não pode esquecer
de manter o que já tem. 'O novo Fundopem
se preocupa com isso, quando incentiva setores
econômicos complementares', explica.
___Competitividade
- Fligenspan não reconhece, entretanto,
no novo programa de incentivos, capacidade
para dar competitividade ao Estado na guerra
fiscal. 'Ao privilegiar pequenas e médias
empresas, o programa praticamente se exime
de incidir sobre a localização
dos grandes investimentos que podem vir ao
Brasil', explica. Neste sentido, segundo o
economista, o Estado fica menos competitivo
do que era no governo passado, já que
só os grandes investimentos têm
flexibilidade suficiente para se moverem de
uma região para outra por causa de
vantagens ficais. Assim, segundo Fligenspan,
o novo programa é uma recusa explícita
do novo governo em competir no cenário
nacional, o que, como vimos, contradiz a opinião
do presidente da Fiergs, Renan Proença.
Condições
do financiamento
Anexo nº1 à Resolução
01/99 do Conselho Diretor do Fundopem/RS
___Em
relação à capacidade
de atrair investimentos para o Estado, o coordenador
do Seadap, Costa Franco, tem uma opinião
diferente da de Fligenspan. Ele entende que
a competitividade do Estado não pode
ser medida só pelo instrumento dos
incentivos. Segundo ele, o Fundopem é
apenas um adicional na competitividade do
Rio Grande do Sul, que está relacionada
muito mais com sua qualidade de infra-estrutura
e localização geográfica
estratégica no Mercosul e com os índices
de qualidade de vida e técnica da sua
população. A posição
de Franco pode ser ilustrada com a manifestação
do diretor da Vant Comunications, Darlo Brandão
Bestetti, que explicou, recentemente, pelos
jornais de Porto Alegre, o interesse da empresa
em investir cerca de R$ 100 milhões
no RS por causa da alta qualidade de vida,
o nível cultural da população,
o padrão da mão-de-obra e a
localização próxima ao
Mercosul. Segundo informações
da assessoria de imprensa do governo do Estado,
a Vant não tem projeto protocolado
para benefícios fiscais. Indiretamente,
entretanto, Costa Franco, assume a assertiva
de Fligenspan, já que reconhece que
o incentivo fiscal é um adicional na
competitividade do Estado. E, como vimos no
passado recente, é um adicional que
pode, em certas ocasiões, fazer a diferença
na hora de ter ou não a instalação
de uma planta industrial no Estado.
Pela novas regras, a GM não teria todo
o incentivo que recebeu do governo
passado. A questão é saber se,
mesmo assim, ela ficaria no Estado
___Futuro
- A partir de agora, todos os processos que
estavam protocolados começarão
a ser analisados pelo Conselho Diretor, que
é composto por oito representantes
de vários órgãos do governo,
um representante da CUT, um da Força
Sindical, um da Fiergs e um da Federasul.
Segundo Costa Franco, a idéia é
concluir o trabalho de análise dos
446 projetos que ainda faltam no decorrer
do ano 2000. Para quem acha muito tempo, o
funcionário da Sedai lembra que o número
de projetos protocolados em 97 é igual
a todos os projetos apresentados nos primeiros
11 anos. Na primeira semana de funcionamento
do programa, 12 projetos foram aprova dos
pelo Conselho, o que significará R$
9,3 milhões em investimentos e R$ 3
milhões em incentivos fiscais.
Fotos:
Paulino Menezes e Flávia Quadros |