Reforma
do Judiciário é fujimorização
sem armas
O
advogado e professor Jarbas Lima foi deputado estadual
por cinco mandatos e deputado federal entre 1994 e
1998. Participou, na Câmara Federal, do início
do processo de debate sobre a reforma do judiciário.
Atualmente, o mestrando em Direito do Estado e professor
de Direito Constitucional da PUC faz o que pode para
conscientizar a sociedade brasileira e o próprio
judiciário de que devem resistir ao processo
de reformas em curso. "Trata-se de uma fujimorização
do Estado", afirma. Ocupado com sua candidatura
a presidente do Internacional Sport Club, o ex-deputado
não perde o cacoete e continua fazendo roteiros
intermináveis pelo interior do Estado. Em todos
os lugares em que faia, o professor Jarbas Lima mobiliza
as mentes em favor do judiciário independente,
que, imagina, corre sérios riscos se a proposta
de reforma for aprovada no Congresso. Em seguida,
algumas das opiniões de um dos mais respeitáveis
constitucionalistas do Estado sobre a reforma que,
segundo ele, pode modificar completamente a vida de
todos os cidadãos deste país
.
Finanças -
Qual o objetivo da proposta de reforma do Judiciário
em tramitação no Congresso Nacional?
Jarbas Lima - A proposta de reforma está
relacionada com um projeto de governo que pretende
concentrar poder. Fundamentalmente, ela quebra as
pernas dos juizes brasileiros, na medida em que ataca
diretamente os predicamentos da magistratura. Se for
aprovada a proposta em tramitação, estarão
relativizadas a vitalicidade, a inamovibilidade e
a irredutibilidade de vencimentos dos juízes.
Sem essas três garantias, os juizes perdem a
autonomia.
Finanças - Então, as propostas
não incidem sobre os problemas do Judiciário?
Jarbas Lima - Certamente, não. No Brasil,
nós temos insuficiência de juízes.
Quando a Constituição de 88 foi promulgada,
tínhamos 4.900 juizes e 350 mil processos.
Atualmente, são 14 mil juizes, mas 3,5 milhões
de processos. A média mundial indica que o
razoável é existir um juiz para cada
7 mil habitantes. Aqui em nosso país, temos
um juiz para cada 30 mil habitantes. Há, também,
debilidades na formação do juiz e uma
irracionalidade de recursos. Mas a reforma não
trata disso. Na verdade, para resolver esses problemas,
sequer seria necessária uma reforma constitucional.
"A reforma do judiciário vai quebrar as
pernas dos juízes"
Finanças - Como se originou este processo
de reforma do Judiciário?
Jarbas Lima - A origem foi uma Proposta de
Emenda Constitucional (PEC) do deputado Hélio
Bicudo, que foi apresentada em 1992. Ocorre que o
deputado Bicudo queria, apenas, algumas mudanças.
Depois, o deputado Genoíno apresentou outra
PEC, propondo a discussão sobre o controle
externo do Judiciário. Essas duas propostas
ficaram engavetadas até que o Executivo resolveu
encaminhar uma reforma. Essas PEC'S, então,
aprovadas na Comissão de Constituição
e Justiça e, posteriormente, passaram a tramitar
numa Comissão Especial de Mérito. Nessa
comissão é que começou o grande
estelionato jurídico. O deputado Jairo Carneiro,
do PFL baiano, apresentou um substitutivo ás
duas propostas que não tinha nada a ver com
as propostas originais, propondo uma reforma no judiciário
por inteiro.
Finanças - Quais os principais aspectos
que o senhor destacaria na proposta em tramitação?
Jarbas Lima - Bom, em primeiro lugar, o ataque
aos predicamentos, que eu já falei. Mas existem
outras duas propostas extremamente danosas para o
Judiciário. A criação do Conselho
Nacional de Justiça, que será um superpoder
com capacidade de dirigir, desde Brasília,
todo o Judiciário brasileiro, é um ataque
frontal ao principio federativo e uma forma de dominar
administrativamente o Judiciário. Por último,
a sumula com efeito vinculante permite o controle
jurídico do poder Judiciário.
Finanças - O que é a sumula com
efeito vinculante?
Jarbas Lima - Simplificadamente, é uma
decisão padronizada que se adota nos tribunais
superiores e que valerá para todo o Judiciário
brasileiro. É uma forma de não se correr
riscos com a autonomia dos juizes. Após a aprovação
de uma sumula com efeito vinculante, ninguém
mais poderá decidir diferentemente sobre a
matéria especifica.
Finanças - Como se organizará
o Conselho Nacional de Justiça?
Jarbas Lima - O Conselho é uma espécie
de diretoria da justiça brasileira. Vai ser
composto, em sua maioria, por membros dos tribunais
superiores ou por pessoas indicadas por eles. Esse
Conselho poderá incidir sobre qualquer processo,
em qualquer lugar do pais. Por isso, vai concentrar
um poder extraordinário, instalando praticamente
uma ditadura interna do poder Judiciário. O
interessante é perceber que a maioria dos que
indicam os membros do Conselho são escolhidos
pelo presidente da República. O que não
for do agrado do Conselho, pode sofrer intervenção.
"A média mundial é ter um juiz
para cada 7 mil habitantes.
No Brasil temos um juiz para cada 30 mil"
Finanças - Praticamente, a reforma pode
extinguir o poder Judiciário como poder autônomo?
Jarbas Lima - É o que eu chamo de Fujimorização
sem armas. Se for aprovada a reforma, do jeito que
está, és taremos muito perto de uma
ditadura constitucional. Veja bem, o direito constitucional
surgiu na época da Revolução
Francesa, com o objetivo de constituir mecanismos
que garantissem a separação das funções
do Estado. O principio geral era: quem legisla não
pode executar, quem executa não pode julgar
e quem julga não pode legislar E isso está
se perdendo no Brasil. O instrumento da Medida Provisória
ia está substituindo, em parte, o Legislativo.
Das 4026 MP's que existem, 3.200 foram edições
e reedições do atual governo, o que
dá uma média de 2,7 MP's por dia sobre
qualquer assunto. A função de legislar,
portanto, já está nas mãos do
Executivo. Agora, o Executivo quer se imiscuir no
Judiciário. É a lógica do Estado
mínimo, que eu chamo de Estado pequeno, barato
e obediente.

"O Conselho Nacional de Justiça será
um super-poder,
uma ditadura interna do judiciário"
Finanças
- Quem sairá prejudicado com essa reforma?
Jarbas Lima - A cidadania brasileira. Na pior
das hipóteses, teremos juizes acomodados, que
vão ganhar a mesma coisa no final do mês
e não terão motivos para se insurgir
contra um poder de tamanha dimensão. Mas a
cidadania não terá mais para quem apelar.
O Judiciário é, por exemplo, o único
refúgio do funcionalismo público contra
as violências praticadas institucionalmente
contra ele. Quando se aprova uma reforma administrativa
que quebra a estabilidade, quando se quer cobrar contribuição
previdenciária de quem já está
aposentado, tendo cumprido a sua parte do contrato,
a única salda é o Judiciário.
Finanças - Como fazer para evitar essa
ditadura constitucional?
Jarbas Lima - Convencendo a sociedade e o próprio
Judiciário da gravidade dessas propostas. A
reforma em curso no Brasil, em suas linhas gerais,
é uma proposta do Banco Mundial para a América
Latina e o Caribe. Tem até uma linha de crédito
para modernizar os prédios e informatizar Em
contrapartida, eles querem garantias que os juizes
não sejam tão imprevisíveis.
"O Executivo já substituiu o legislativo
com o uso das MP's"
Fotos:
Flávia de Quadros