O
que fazer para superar a crise financeira
do Estado?
A matéria
de capa desta edição apresenta
um balanço dos seis primeiros meses
das finanças públicas do Rio
Grande do Su1. A situação crítica
tem criado dificuldades para o novo governo,
que ainda não conseguiu superar a fase
da "arrumação da casa"
obrigando-o a adiar compromissos de campanha.
Até agora, a administração
fazendária não conseguiu apresentar
um plano claro de combate à crise que
permita à população gaúcha
conhecer as estratégias para que o
Estado possa alavancar o desenvolvimento,
qualificar os seus serviços e garantir
melhores salários para o funcionalismo.
Nesta polêmica, os deputados Busatto
e Pimenta dão a sua receita.
Retomar
o programa econômico e fiscal
___Passados
seis meses da posse do novo governo, pergunta-me
o Sindaf o que fazer para superar a crise
das finanças públicas do
Rio Grande do Sul. Esse questionamento
remete a uma reflexão profunda.
Tivesse o governo Olívio um projeto
articulado e sólido para viabilizar
o desenvolvimento integrado e integrador
do Estado, sanear as contas públicas
e realizar suas fantásticas promessas
de campanha, com certeza essa pergunta
não estaria na pauta do dia.
___Ofereço
alguns elementos concretos da realidade
ao debate para demonstrar porque lamento
a forma como os atuais governantes vêm
atuando e por que considero equivocadas
as intenções até
aqui propostas.
Cézar Busatto
Deputado estadual - PMDB
___Como
secretário da Fazenda do governo
Britto, posso afirmar que formulamos e
implantamos uma estratégia de desenvolvimento
para o Rio Grande que só tem paralelo,
na história recente do Estado,
com a do governo Brizola, quatro décadas
atrás.
___Foi graças
a uma agressiva política de atração
de investimentos que o Rio Grande pôde
obter a inserção efetiva
de uma economia, até então
periférica e dependente, no centro
dinâmico da economia brasileira,
ao lado de São Paulo, Rio de Janeiro,
Minas Gerais e Paraná, Esta profunda
transformação geoeconômica
teria, evidentemente, grandes reflexos
na trajetória futura do Estado,
não fossem os estragos provocados
pela ação desestruturadora
do governo Olívio, tão bem
simbolizada pela perda da Ford.
___O
programa de privatizações
foi o instrumento principal dessa estratégia
de desenvolvimento. Ao criar as condições
necessárias para resolver o problema
histórico do sucateamento da infra-estrutura
básica de estradas, portos, telefones
e energia, o programa de privatizações
foi essencial para viabilizar um salto
no desenvolvimento do Rio Grande do Sul.
___ Ao mesmo
tempo, os casos de concessões e
privatizações bem-sucedidos,
como o Porto de Rio Grande e a CRT e,
posteriormente, a CEEE, conferiram credibilidade
ao Estado diante dos investidores e vultuosos
recursos financeiros ao Tesouro para disputar
com outros Estados concorrentes a instalação
aqui de um pólo da indústria
automobilística brasileira.
___ O eixo
da estratégia implantada foi a
complementaridade da matriz produtiva
do Estado, internalizando os segmentos
industriais mais dinâmicos e produtores
de maior valor agregado. O Rio Grande
do Sul desenvolveu, no passado, um expressivo
pólo de autopeças, que abastecia
a indústria automobilística
do centro do país, mas não
produzia o automóvel; somos o maior
produtor de fumo do pais, ma não
produzia o cigarro; somos um dos maiores
consumidores nacionais de aços
planos, mas não temos uma indústria
siderúrgica de aços pianos;
somos o terceiro pólo da indústria
brasileira de informática, mas
não produzimos computadores.
___Infelizmente, em tão
pouco tempo de administração,
a ânsia de destruir tudo o que havia
sido feito antes da instalação
do governo que se autoproclama democrático
e popular, já gerou seqüelas
profundas em nossa economia. Perdemos
investimentos, empregos e as receitas
públicas estão caindo. Com
seu viés autoritário, agora
exposto para a sociedade, o governo Olívio
vem mostrando que tem duas faces e concentra
sua energia apenas em buscar conflitos.
Até a renegociação
da dívida pública, que nos
libertou de uma verdadeira bola de chumbo,
virou motivo de contestação
judicial e confronto com o governo federal,
com graves prejuízos.
___ Nosso
projeto previa que, a partir de 2001,
a retomada do desenvolvimento estadual
começaria a gerar ganhos de arrecadação
suficientes para recuperar o equilíbrio
fiscal do setor público. Durante
o período de transição
dos anos de 1999 e 2000, no qual ainda
não estariam em operação
plena as novas plantas industriais, o
financiamento do déficit fiscal
continuaria na dependência de receitas
de privatização. Após
esse período, teríamos concluído
a construção de um novo
setor público com capacidade de
financiar gastos e investimentos de natureza
social, com forte poder regulador/fiscalizador
dos serviços públicos privatizados
ou concedidos através da Agência
de Regulação de Serviços
Públicos - AGERGS.
___ O processo
de modernização da Secretaria
da Fazenda, que enfrentamos com coragem
em nossa gestão, abrindo caminho
de superação das questões
corporativas históricas, ganhou
impulso com a Escola Fazendária,
o Programa de Qualidade Total, o Plano
de Gestão e Metas, sonhos antigos
dos fazendários que estão,
hoje, paralisados. O resultado está
sendo acompanhado com estupefação
pela sociedade gaúcha: queda na
cobrança de devedores, queda na
arrecadação, corte brutal
nos investimentos do Tesouro, perdas de
investimentos privados, aumento sem precedentes
do desemprego. Diante desse quadro, fica
difícil sugerir caminhos para os
atuais governantes, tão arrogantes,
tão donos da verdade, tão
obstinados em agredir e criticar Só
enxergo um caminho: retomar o programa
econômico e fiscal que vínhamos
executando, antes que seja tarde e o Estado
fique inviabilizado.
___ O governo
Britto, pelo que significou de inovação,
ruptura e pelas transformações
profundas que promoveu na sociedade gaúcha,
vai ser um marco nas conquistas de nossa
história. O mesmo talvez não
seja dito a respeito do governo atual,
se seguir o caminho desses seis primeiros
meses.
Paulo Pimenta
Deputado estadual - PT
A herança
que devemos rejeitar
___O
governo passado deixou uma herança
de destruição financeira
e administrativa que projeta um futuro
bastante difícil para o Rio Grande.
A gestão anterior foi marcada
por um festival de isenções,
anistias e renúncias fiscais
que, somados à ausência
de regras concretas para combater a
sonegação, provocaram
uma forte queda na arrecadação
de ICMS do Estado. É lógico
que o cenário recessivo no qual
o país está mergulhado
tem impacto importante sobre a cobrança
tributária, mas os números
deste último período,
que apontam crescimento na arrecadação
federal e declínio do recolhimento
estadual, permitem-nos dizer que o desempenho
gaúcho teve outras influências
negativas, além da conjuntura
nacional desfavorável.
___Basicamente,
as medidas prejudiciais às finanças
públicas podem ser divididas em
decisões políticas e administrativas.
Em termos políticos, considero
que a desoneração tributária
de vários produtos, através
da implantação de alíquotas
especiais, diminuição da
base de cálculo para o imposto
e da concessão indiscriminada de
incentivos e anistias fiscais despotencializou
em muito a receita estadual. A questão
gerencial também não pode
ser menosprezada, pois a desorganização
verificada na Secretaria da
___Fazenda
repercutiu na produtividade dos servidores,
gerando queda na produção
f iscai e na arrecadação
via cobrança administrativa, pilares
fundamentais do ingresso de receitas próprias
do Estado.
Nos últimos anos, o Estado conviveu
com um déficit estrutural crônico,
que vinha sendo mascarado com os recursos
das privatizações. O rombo
orçamentário apurado no
exercício de 98 foi de R$ 1,4 bilhão.
___
Este valor é que deverá
ser coberto pela atual administração.
O quadro tende a se agravar, pois o serviço
da dívida está sendo substancialmente
superior ao registrado no ano passado.
Por outro lado, existe pouco espaço
para a redução das despesas
com o pagamento do funcionalismo e muito
pouco com o custeio da máquina
administrativa. Se somarmos os gastos
previstos apenas com o funcionalismo,
custeio e pagamento da dívida,
vamos chegar ao índice de 110%
da receita, isto sem reservar um centavo
para investimentos em áreas essenciais,
como saúde, educação,
segurança e saneamento básico,
que precisam ser financiados.
___
O retrospecto apresentado não deixa
dúvidas sobre a gravidade da situação
a ser enfrentada pelo governador Olívio
Dutra. Demissões não são
cogitadas e cortes de recursos para áreas
essenciais não estão na
perspectiva do governo. Não há
muito o que fazer para diminuir a pressão
das despesas sobre o Tesouro. Portanto,
a saída óbvia, na minha
opinião, é atacar a crise
das finanças pelo lado da receita.
Ou seja, é preciso, a curto prazo,
desenvolver uma política que possibilite
o incremento da arrecadação
e a consolidação de uma
cultura de justiça fiscal, diminuindo
a incidência da sonegação
e da inadimplência.
___
Acredito que algumas medidas administrativas
podem contribuir - e muito - para ajudar
a fechar o raio por onde escorre uma quantidade
razoável de recursos públicos.
Estas iniciativas passam, basicamente,
pela revisão dos incentivos fiscais
e, pelo combate firme à sonegação.
Algumas dessas medidas já estão
sendo tomadas pela administração
fazendária. A redefinição
das alíquotas de bebidas e TV a
Cabo, por exemplo, significaram o início
de um processo de revisão que precisa
ser ampliado. Além disso, o governo
precisa tomar medidas duras, através
de um programa de combate à sonegação
que altere os indicadores financeiros
do Estado. Por vários motivos,
o potencial de fiscalização
vem sendo desperdiçado, com impacto
negativo nos cofres públicos. É
fundamental um trabalho de especialização
da fiscalização, assim como
a definição de metas a serem
alcançadas. Acredito que estas
alterações podem somar,
no mínimo, 5% da arrecadação
de ICMS, o que ampliaria a receita mensal
em R$ 15 milhões, somando mais
de R$ 180 milhões ao ano.
___
A implementação da taxa
Selic na atualização dos
créditos a serem cobrados é
outra ação que pode ser
adotada imediatamente pela Secretaria
da Fazenda, pois os equipamentos e softwares
já foram adquiridos, faltando apenas
o treinamento dos funcionários.
Calcula-se que, ao entrar em vigor, este
mecanismo proporcionará um acréscimo
de R$ 3 milhões ao mês para
a receita estadual, o que, no final do
ano, representará um plus de R$
36 milhões na arrecadação.
___
Entendo que o governo tem obrigação
de priorizar estes temas. Com a permanência
da crise financeira, não será
possível concretizar o programa
de mudanças eleito nas urnas, que
aponta para um Rio Grande mais justo e
igualitário. Na condição
de presidente da Comissão de Finanças
da Assembléia Legislativa, estarei
atento a estes problemas e à disposição
do governo e da sociedade para encaminhar
as soluções tão necessárias
quanto emergenciais.