Ajuste
fiscal ou desenvolvimento?
Roberto
Calazans
Agente Fiscal do Tesouro
___O
discurso econômico do novo governo centrou-se
na existência de déficit primário
de R$ l bilhão, cuja novidade não
era sua magnitude, mas a sua forma de financiamento.
Em virtude disso, justificou-se a política
conservadora de ajustamento das finanças
estaduais. A ênfase no equilíbrio
fiscal e na expansão das receitas, assumidos
como bandeiras do governo de esquerda, contradiz
(ou revisa) seu tradicional discurso teórico,
centrado no desenvolvimento econômico.
isso nos impõe uma importante reflexão:
será que a esquerda (ou parte dela) se
converteu à lógica do orçamento
equilibrado, tão festejada pelo neoliberalismo
e renunciou sua vertente keynesiana ou cepalina?
Examinemos essa questão.

___O
receituário conservador é por
demais conhecido: reduzir o tamanho do Estado
e o déficit público, cortar os
gastos públicos, espremer o orçamento
público, objetivando gerar poupança
pública para pagar a dívida, financiar
os grandes capitais e alguns programas sociais
(educação, em especial). Num piano
mais geral, orçamento equilibrado associa-se
à estabilidade de preços e ao
crescimento baseado nos fundamentos econômicos.
É, pois, oposto ao projeto desenvolvimentista,
já que se recorre à política
monetária ativa e à Política
fiscal contracionista.
"Será
que a esquerda se converteu à lógica
do orçamento equilibrado?"
___No
caso brasileiro, uma parte da elite política
ainda pratica o populismo de direita. Não
consegue impor o orçamento equilibrado,
pois segue a lógica patrimonialista,
estando na dependência do gasto público
para viabilizar suas propostas eleitorais. Quando
ocorrem iniciativas de repressão fiscal,
as injunções políticas
acabam por impor afrouxamento nos gastos públicos,
em especial em períodos eleitorais. Mesmo
após o Plano Real, o governo federal
demorou Para avançar no ajuste fiscal
de suas contas. O fracasso do Pacote 51, em
fins de 1997, é um nítido exemplo
dessa peculiaridade.
___Todavia,
por pressão das negociações
com o FMI, foi estabelecido arcabouço
institucional para Reforma do Estado, mediante
a Lei Camata, a Reforma da Previdência
e a Reforma Administrativa, os quais apontam
claramente para a redução do emprego
público e dos altos salários no
serviço público. O governo FHC
pretende completar a última rodada de
reformas, com ênfase para a Previdência
e para a Reforma Tributária.
___E
a esquerda no RS?. Herdou uma crise fiscal e
financeira histórica, cuja resolução
se tornou mais complexa em virtude da renúncia
das receitas de privatização.
Nessa situação, equilibrar receita
e despesa era o trivial a ser perseguido. Mesmo
opondo-se à política econômica
do ministro Malan, o governo estadual passou
a justificar os vetos aos aumentos salariais
da magistratura com base na Lei Camata, a sugerir
o aumento de contribuições previdenciárias
dos servidores, a propor a redução
dos gastos com pessoal, bem como reduzir o nível
histórico dos investimentos públicos.
___Com
boa vontade, vamos admitir que, por insuficiência
financeira, é necessário aumentar
receita, reduzir os gastos com pessoal e "Outros
Custeios e Capital - OCC", para não
recorrer à privatização
e ser fiel ao discurso de campanha. Teoricamente,
o Estado elevaria sua poupança pública
e canalizaria recursos para financiar os despossuídos.
O orçamento público passaria a
ser equilibrado e popular. Não se gastaria
mais do que se arrecada e se redistribuiriam
as funções orçamentárias
no setor público em favor dos excluídos.
___Mas
as seguintes perguntas se impõem: onde
nesse modelo se insere o projeto de desenvolvimento
gaúcho? O modelo do FMI propõe
uma solução: encolher os déficits
públicos e pagar juros reais, promover
a recessão e o desemprego, acreditando
que a "mão invisível"
trará eficiência, produtividade
e melhor distribuição de renda.
No modelo gaúcho, sem privatização,
sem poupança pública, quem irá
realizar os investimentos necessários
para alavancar o desenvolvimento regional? Com
a disputa com a União, como será
possível obter avais para os empréstimos
internacionais (poupança externa), renegociar
os contratos da dívida e discutir a questão
previdenciária? Quais serão os
setores econômicos e os efeitos multiplicadores
estimados que irão dinamizar o produto
e a renda estadual, a partir da opção
pela defesa das vocações tradicionais
de nossa economia? A parceria com o setor privado
seria uma alternativa viável, mas isso
encaminha à reforma patrimonial do Estado,
que parece estar descartada pelo discurso oficial.
"A
reforma patrimonial do Estado parece estar descartada
pelo discurso oficial"
___Devido
a essas restrições, ao vigorar
o ajustamento ortodoxo, os salários serão
a variável de ajuste para a acumulação
de poupança pública. É
o que demonstra a história recente das
finanças públicas estaduais. Ainda
que haja um piano para incrementar o ICMS em
R$ l bilhão/ano em quatros anos, o cenário
será de conflito salarial, pois permanece
a irredutibilidade salarial e a inflação
está controlada. A sustentação
dessa estratégia fiscal dependerá
apenas da repressão fiscal, já
que o governo optou corretamente pela não-demissão
de servidores. Mas haverá outro problema:
até quando será possível
segurar os gastos em "OCC', implicando
a paralisia dos investimentos e da manutenção
dos serviços públicos? Nos dois
últimos anos de governo, os gastos com
investimento geralmente sobem.
Face ao exposto, percebe-se que a que lógica
desse modelo centra-se no fundamentalismo econômico,
cujo custo será a renúncia da
articulação entre a política
fiscal e a estratégia de desenvolvimento.
Infelizmente, pode-se cometer um erro estratégico
para o RS, ao se persistir nessa orientação
econômica, cuja eficácia é
apenas financeira.
___Enfim,
resumir a essência da política
econômica ao discurso do equilíbrio
fiscal não é privilégio
da esquerda, nem seu campo teórico. Ao
contrário, esta nunca desprezou a revolução
keynesiana e a heterodoxia cepalina. Ajustar
as contas públicas para manter os salários
em dia é razoável. Mas o exercício
do poder exige capacidade de formulação,
de gerenciamento e de implementação
de novas estratégias de desenvolvimento
regional. A ortodoxia ou a política apelidada
como "arroz com feijão" é
o caminho mais curto, quando são escassos
os projetos consistentes.