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"O Coração
Desvelado", de Peter Gay (Companhia
das Letras - 484 págs.) é
o 4º volume da coleção
"A Experiência Burguesa",
que vem sendo escrito pelo autor. Gay
é professor de história
na Universidade de Yale (EUA). No presente
livro, ele acompanha a formação
da individualidade na Europa do século
XIX analisando as obras de escritores
e pintores e os hábitos emergentes,
como o de escrever cartas aos amigos.
___No
final do século XIX, preocupado
com o fato de que seus contemporâneos
pareciam estar acometidos por uma verdadeira
obsessão em falar de si mesmos
e de expor em público seus sentimentos
mais íntimos, Edgar Allan Poe prometeu
glória instantânea a quem
estivesse disposto a escrever uma pequena
obra denominada Meu Coração
Desvelado. A sugestão do escritor
inglês, apesar de suas fascinantes
promessas, (afinal, quem não deseja
a glória instantânea?) não
seduziu a nenhum dos literatos de sua
época, nem a ele próprio,
aliás.
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| ___Foi
preciso esperar um século, quando
a pós-modernidade televisiva já
havia liquidado toda a possibilidade de
glória a qualquer livro, para que
o escritor alemão, Peter Gay, realizasse
a sugestão de Allan Poe. "O
Coração Desvelado" de
Gay, chega agora, em cuidadosa edição
da Companhia das Letras, às livrarias
brasileiras.
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Este volume sucede os três anteriores,
também publicados pela Companhia
das Letras, "A Educação
dos Sentidos" (1988), "A Paixão
Terna" (1990), e "O Cultivo do
Ódio" (1995), que constituem,
por sua vez, a coleção"A
Experiência Burguesa da rainha Vitória
a Freud", Peter Gay tornou-se conhecido
do público leitor brasileiro com
a publicação em 1989, mais
uma vez pela Companhia das Letras, de seu
monumental estudo sobre Freud: Freud, uma
Vida para Nosso Tempo.
Em "O Coração Desvelado",
Gay foi, felizmente, infiel a Allan Poe
e fiel ao espírito sistemático
do pensamento germânico que tanto
caracteriza seus escritos. Ao invés
do pequeno livro sugerido por Allan Poe,
Peter Gay nos brinda com uma poderosa obra
de quase 500 páginas, onde o tema
que inquietava Poe, << a preocupação
com o eu>>, é tratado em dimensões
históricas, como uma verdadeira biografia
da subjetividade e da intimidade burguesas.
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A obra de Gay, entretanto, só adquire
integralmente este sentido se a percebemos
em contraste com moldura histórica
iluminista do século XVIII. O Iluminismo,
havia assumido, como se sabe, o combate
incansável contra o mundo encantado
do Mito, suas armas eram as leis da natureza
que podiam ser objeto de demonstrações
positivas. Neste contexto, o mundo interior
dos indivíduos, inaprensível
à lógica naturalista, acabava
sendo visto, suspeitosamente, como cúmplice
das mitologias e fantasias feudais. É
fácil perceber, pois, que na fria
moldura do racionalismo oitocentista não
havia espaço para a subjetividade
e para as preocupações enunciadas
na primeira pessoa do singular. A subjetividade
existia apenas como expressão de
forças naturais ou científicas
que, em última análise, determinavam-na.
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O subjetivo, enquanto dimensão de
indeterminação, de acaso e,
por isto mesmo, de liberdade praticamente
inexistia.
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O que o livro de Peter Gay nos mostra é,
precisamente, o esforço do século
XIX para redescobrir, ou melhor, reinventar
esta dimensão de subjetividade íntima,
tão desprezada pelo século
XVIII. De que forma, entretanto, realizar
esta façanha se o legado iluminista,
como acabamos de ver, era um verdadeiro
deserto neste sentido; e se o retorno aos
bons tempos feudais, onde a subjetividade
habitava ainda o regaço mistificado
da religião, era uma utopia conservadora
que repugnava a mente esclarecida do nosso
burguês, filho assumido do século
das Luzes?
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Com estas duas portas bloqueadas, a maneira
pela qual a subjetividade vai manifestar-se
é através de sua relação
com a arte.
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Não tanto da produção
artística, que esta nunca será
opção aberta à generalidade
dos indivíduos, mas a da fruição
da arte. Nesta época, por exemplo,
relata Peter Gay, o comparecimento a concertos
ou a recitais de poemas adquiria um estatuto
de verdadeiro dever social entre as camadas
mais cultas da sociedade. A música
e a poesia desfrutadas em público
eram a marca registrada de um coração
que iniciava seu processo de desvelamento.
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Não demorará muito para que,
enriquecidas pela arte, tais subjetividades
queiram se expressar. Os diários,
correios íntimos e as autobiografias
transformam-se, subitamente, em matéria
literária e vão enriquecer
os editores. O coração burguês
do habitante do século XIX desvelava-se
em público, para o seu deleite e
de seus contemporâneos.
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Entretanto, o que Peter Gay também
nos mostra é que nem todo o mundo
aplaudia esta situação. Karl
Marx, por exemplo, ao longo de sua obra,
não se cansa de retratar a sensibilidade
burguesa como um pejorativo amálgama
de cinismo e de vulgaridade. Nietzsche,
tampouco, deixou-se embalar pela ardente
intimidade que seus contemporâneos
fizeram vir à luz das mais diversas
formas na Europa de então. O subjetivismo
da época, sarcasticamente classificado
de filisteu, não possuía,
para Nietzsche, o menor valor cultural.
Em oposição a Nietzsche e
Marx, Goethe, chamará, artisticamente,
atenção para a complexidade
e eventual grandeza deste processo de reconstrução
da personalidade humana.
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A obra de Gay está, aliás,
percorrida por esta questão que colocou
Marx e Nietzsche de um lado e Goethe de
outro: qual o significado da subjetividade
burguesa? Não há resposta
conclusiva, pois, na verdade, o que conta
é a instigante pergunta que o autor
deixa, como provocação, ao
leitor.
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Por fim, resta dizer que o livro de Gay
resulta de uma talentosa arquitetura onde
é possível encontrar as idéias
conflitantes dos pensadores, mas também
os gestos cotidianos de pequenos e grandes
homens, os comportamentos aceitos e reproduzidos
em sociedade e também aqueles considerados
marginais e inapropriados, os temas que
inspiravam os livros e as peças de
teatro e aqueles constantes dos provérbios
e canções populares. É
este material fascinante que Peter Gay utiliza
como argamassa para reconstruir a trajetória
subjetiva das atitudes humanas em um livro
fundamental. Ainda mais em tempos como os
nossos em que todo o potencial subjetivo
dos indivíduos está diretamente
associado à sua capacidade de comprar
um telefone celular em Miami.
Sergio Weigert
- Professor e jornalista |