Em busca do consenso
O
deputado Germano Rigotto é um dos principais
líderes da base governista na Câmara
dos Deputados. Nas suas mãos foi colocada
a missão de construir um grande consenso
sobre a reforma tributária, há muito
tempo uma prioridade que não se realiza.
Como presidente da Comissão de Reforma Tributária,
tem percorrido o Brasil e debatido com a sociedade
a necessidade de um novo pacto, que não signifique
perdas para a União, Estados e municípios
e que diminua a carga tributária. No início
de julho, quando falou a Finanças por telefone,
o deputado gaúcho descansava em Caxias de
um roteiro que iniciou em Brasília, passou
por Belém do Pará, Rio de Janeiro,
Lages e terminou em Farroupilha. E a diversidade
não é apenas geográfica. Dirigentes
sindicais, prefeitos e grandes empresários,
todos estão sendo procurados pelo deputado
para apresentar propostas na Comissão.
Agora, com o debate sobre a reforma tributária
esquentado pela proposta do senador ACM de criar
um imposto contra a pobreza, Rigotto quer colher
frutos do intenso trabalho que tem desenvolvido
desde janeiro. Se depender do deputado do PMDB,
o resultado desta peregrinação será
conhecido ainda este mês. Ao lado, algumas
idéias que o deputado tem defendido em seus
roteiros pelo Brasil.

"Nosso
sistema tributário é concentrador de
renda"
Finanças
- O que está errado no sistema tributário
brasileiro?
Rigotto - Ele é complexo e ineficiente.
A legislação tributária foi remendada
ao longo do tempo, criando um sistema que facilita
a evasão fiscal e a sonegação,
incentiva a informalização da economia
e onera a produção. E um sistema irracional;
penaliza os trabalhadores de baixa renda, que pagam
tributos sobre a cesta básica; penaliza a classe
média, que é uma das mais tributadas
do mundo no imposto de renda e penaliza a produção,
por causa dos tributos cumulativos. Numa economia
globalizada, um sistema tributário como o nosso
só contribui para a perda de competitividade.
Finanças - Quais são as saídas
para mudar isso?
Rigotto - Precisamos de um sistema que tenha
uma base tributária mais ampla. Só assim
será possível corrigir as distorções
localizadas. É preciso que se compreenda que
tributos muito pesados são um fator de incentivo
à evasão fiscal. A desoneração
da produção e do investimento pode incentivar
a economia e ampliar a base tributária, criando
condições para diminuir as cargas setoriais
sem comprometer a arrecadação da União,
Estados e municípios.
Finanças - Já existe alguma proposta
concreta para fazer isso?
Rigotto - Existem várias propostas.
A Comissão está analisando nove propostas
de emendas constitucionais e mais de 90 emendas ordinárias.
Algumas coisas, entretanto, já estão
definidas. Haverá modificações
importantes nos impostos sobre consumo. O Pis, o Confins
e a Contribuição sobre o Lucro, que
recaem cumulativamente sobre a produção,
estão fadados a desaparecer.
Os
impostos que recaem cumulativamente sobre a produção
devem ser extintos
Finanças
- Em que medida a reforma tributária irá
incidir na vida dos brasileiros?
Rigotto - Na medida em que se tem um sistema
tributário mais eficiente, que ative a economia
e lhe dê competitividade, pode-se gerar mais
empregos, aumentar as exportações, alcançar
um superávit comercial mais significativo,
depender menos do capital especulativo. Carga tributária
menor sobre a produção e sobre o investimento
significa mais desenvolvimento, Com mais gente com
poder de compra, o comércio vende mais, a industria
produz mais, a economia toda cresce. Atualmente, a
carga tributária chega a 30% do PIB. Se o PIB
crescer, esta carga poderá diminuir, mantendo
ou ampliando a receita atual.

"Se o PIB brasileiro
crescer, a carga tributária vai diminuir e
a receita aumentar"
Finanças -
O sr. acha que a reforma tributária pode ajudar
o Brasil a superar a sua condição de
país com a pior distribuição
de renda do planeta?
Rigotto - Não tenho a menor dúvida
disso. O nosso sistema tributário é
concentrador de renda. O fechamento de brechas, que
fazem com que grandes grupos paguem menos impostos
do que deveriam pagar, significará justiça
fiscal. Isso permitirá diminuir a carga sobre
o trabalhador de baixa renda, que é uma forma
de combater a concentração de renda.
Um trabalhador que ganha em torno de cinco salários
mínimos compromete 14% do seu salário
com tributos embutidos na alimentação.
Isso é um absurdo. No Brasil de hoje, enquanto
os grandes não pagam ou pagam pouco, os pequenos
pagam muito.
Finanças - Em Brasília, a sucessão
presidencial já começou. O senhor acha
que isso pode atrapalhar a reforma tributária?
Rigotto - Eu espero que não. A reforma
tributária não pode esperar. Ela tem
que ser prioridade. Mas se o governo federal, os governos
estaduais e os municipais puxarem o tapete, a reforma
não sai. Se não enfrentarmos esta situação
agora quem vai pagar é a própria sociedade.
Finanças - Que mudanças o senhor
considera essenciais para a criação
de um sistema tributário mais justo e eficiente?
Rigotto - Primeiro, acabar com os tributos
cumulativos. Depois, criar um imposto seletivo sobre
alguns produtos e serviços. Um imposto que
possa ser cobrado na saída da montadora de
automóveis, da refinaria, da fábrica
de cigarros. Uma mudança no ICMS também
seria muito importante. Acho que o ICMS deve continuar
sendo cobrado e fiscalizado pelo Estado, mas com alíquotas
definidas pelo Senado federal. Um bom caminho é
um imposto sobre valor agregado cobrado no destino
e não na origem.
Finanças - Quando teremos um novo sistema
tributário?
Rigotto - Ao final de agosto, queremos votar
uma proposta na Comissão. Em setembro, devermos
chegar no plenário da Câmara. Estamos
fazendo o possível para que a reforma tributária
esteja concluída ainda este ano.
Fotos: Paulino Menezes