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___Embora
esta realidade não seja nova, ela atrapalha
muito mais a este governo, que enfrenta não
apenas a ameaça da falta de dinheiro, mas
o desafio de encontrar um caminho alternativo, que
não seja a venda do patrimônio público,
a demissão de servidores ou o corte de despesas
sociais para sanear as finanças estaduais.
Até agora, entretanto, o governo ainda não
descobriu a receita para resolver esta equação.
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Quando assumiu, em janeiro passado, o novo governo
encontrou o Estado com um déficit orçamentário
da ordem de R$ 1,4 bilhão. Explicando melhor,
esse era o valor que o Estado gastava a mais do
que arrecadava no período de um ano. A diferença
vinha sendo coberta, até 1998, pelas receitas
de privatizações, que somaram naquele
ano cerca de R$ 1,8 bilhão. O novo governo
herdou, também, um conjunto de compromissos
que atinge de forma direta o equilíbrio financeiro.
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Para se ter uma idéia disso, o acordo da
dívida, assinado com a União em meados
do ano passado, fez com que o serviço líquido
da dívida, que é a diferença
entre a receita obtida por operações
de crédito e a despesa a título de
pagamento da dívida, crescesse em 280% em
relação ao primeiro semestre de 1998.
Isso porque o desembolso com as parcelas da dívida
sofreram um substancial aumento e porque houve restrições
para a obtenção de novos financiamentos.
Portanto, embora tenha sido possível, no
primeiro semestre, um superávit operacional,
o problema da dívida desequilibrou as finanças
e comprometeu o ajuste necessário. O resultado
foi um déficit orçamentário
da ordem de R$ 130 milhões.
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Com o acordo assinado pelo governo anterior, o serviço
líquido da dívida teve um crescimento
de 280%. O resultado é déficit orçamentário
no primeiro semestre.
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Outro exemplo bastante ilustrativo é o impacto
dos benefícios fiscais sobre o recolhimento
de ICMS. Uma empresa beneficiada, por exemplo, que
em 1996 havia recolhido uma quantia que representava
1,91% do total do ICMS arrecadado, passou a recolher,
em 1998, 1% e nos primeiros seis meses de 1999,
apenas 0,74%.

Tá
faltando a receita
___Políticas
- A estratégia do governo tem sido, até
agora, tentar reduzir o comprometimento com a dívida
e cortar gastos. A política em relação
à dívida não tem tido impacto
sobre as contas do Tesouro, já que a União
tem bloqueado repasses federais ao Estado no mesmo
montante da diferença dos pagamentos. A tendência,
inclusive, é que, paulatinamente, os pagamentos
se regularizem, até porque o Estado precisa
do aval da União para ampliar a contratação
de recursos de instituições financeiras
nacionais e internacionais. A expectativa de obter
uma decisão favorável do Supremo Tribunal
Federal a respeito das diversas ações
que impetrou esbarra na tradicional demora daquela
corte em proferir suas decisões e na falta
de tradição em decidir contra a União
em assuntos desta natureza. Caso o STF acolha o
pleito do Rio Grande do Sul, será a primeira
vez que irá interferir na condução
da política econômica nacional.
A despesa
com a folha não diminuiu, mas mantém-se
estável em relação ao ano passado
___Já
a redução de despesas esbarra na impossibilidade,
no curto prazo, de reduzir o comprometimento da
folha de pagamento. Ao contrário, a folha
cresceu sobre o mesmo período de 1998, em
termos nominais, 9,7%, aumentando o comprometimento
da Receita Corrente Líquida de 77,5% para
82,1%. Mesmo sem ter concedido qualquer aumento,
tendo cortado vantagens e reduzido o número
de CC's, o Executivo não conseguiu resultados
favoráveis nesta área. A iniciativa
de cortar a incidência de vantagens sobre
FG's, demonstrou, também, que qualquer medida
que incida sobre os salários do funcionalismo
vai esbarrar numa resistência ativa dos funcionários
públicos, especialmente quando persistirem
dúvidas sobre a viabilidade jurídica
das iniciativas.
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Ocorreram reduções importantes nas
despesas de custeio e investimentos. Os gastos com
manutenção da máquina decresceram
mais de 20% em relação ao mesmo período
do ano anterior, significando uma economia de cerca
de R$ 70 milhões. Os cortes, entretanto,
não comprometeram o funcionamento da máquina
estatal, já que se concentraram principalmente
nas áreas de consultoria e publicidade. Esta
redução trouxe o comprometimento com
custeio para a média histórica (em
torno de R$ 550 milhões/ano), o que significa
que dificilmente seja possível diminuir ainda
mais suas despesas nesta rubrica. Em relação
aos investimentos, houve uma redução
bastante significativa, passando de R$ 690 milhões,
no primeiro semestre de 1998, para R$ 71 milhões
nos primeiros seis meses de 1999. Sobre isso é
preciso explicar, no entanto, que os investimentos
de 1998 estiveram muito acima da média histórica
do Estado. O ano eleitoral fez com que o governo
anterior aumentasse em cerca de 80% os investimentos
em relação ao ano de 1997, que já
havia sido bastante superior aos anos anteriores.

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Receitas - A arrecadação do
ICMS do Estado, que vem decrescendo ano a ano, manteve
a tendência de queda no primeiro semestre
deste ano. Em termos reais, o desempenho do ICMS
decaiu 2,6% em relação ao primeiro
semestre de 1998. Esta queda, como se sabe, está
relacionada com a diminuição em 1%
da alíquota média do ICMS estadual,
mas não é explicada apenas por isso.
A política de benefícios fiscais,
ao contrário do que dizem seus defensores,
repercute pesadamente sobre a arrecadação
presente do ICMS e não apenas sobre o ICMS
incremental. No setor fumageiro, por exemplo, que,
como se sabe, foi bastante beneficiado por incentivos,
os dados comprovam que houve um decréscimo
significativo de recolhimento do imposto estadual.
Somando-se o valor recolhido por quatro grandes
empresas do setor, tem-se que representavam 3,37%
do total do ICMS recolhido em 1996, passando para
1,40%, em 1998, e para 1,18% no primeiro semestre
de 1999. Dos R$ 151 milhões arrecadados pelo
Estado dessas empresas, em 1996, as projeções
indicam que, em 1999, o Estado vai arrecadar apenas
R$ 55 milhões. Uma perda de quase R$ 100
milhões, isso sem considerarmos os índices
inflacionários. Na metalurgia e na química,
esses números se repetem.
O Estado
só poderá superar a crise das finanças
se conseguir aumentar a receita
Revisão
das alíquotas da cerveja e TV a Cabo já
tiveram resultados em julho, quando a receita cresceu
3,5%
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O ambiente recessivo também contribui para
piorar a situação de crise financeira
do Estado. Embora a relação PIB/ICMS
não tenha se mostrado linear nos últimos
cinco anos, sabe-se que uma economia estagnada pode
significar diminuição na arrecadação;
o que, pelo menos até agora, está
se confirmando. Esta situação fez
com que a participação do RS no ICMS
nacional ficasse, na média dos três
primeiros meses de 1999, próxima à
de 1998. Enquanto a média do ano passado
foi de 6,95%, a média registrada no primeiro
trimestre deste ano chegou, conforme dados do Banco
Central, a 6,94%. Isso num cenário em que
houve crescimento da participação
da Região Sul - que passou de 15,09%, em
1998, para 15,46% no primeiro trimestre de 1999
-, e de Estados como Paraná e Rio de Janeiro.

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Organização - A crise interna
da Secretaria da Fazenda tem auxiliado para que
o Executivo não consiga superar os problemas
financeiros. A nova administração
não conseguiu, até agora, apresentar
a sua visão organizacional do Fisco, fazendo
com que se mantenham as incongruências da
reestruturação organizacional desenvolvida
pela administração anterior.
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Ao contrário do processo da despesa, que
tem seus mecanismos de decisão organizados
em diversos níveis (Junta Financeira do Estado,
Junta Financeira da Fazenda e Departamento da Despesa),
o processo da receita mantém-se comprimido
no Departamento de Receita Pública, com um
excesso de níveis hierárquicos, o
que dificulta a coordenação de processos
importantes, como o da arrecadação,
que se encontra engessado pela excessiva segmentação
de seus sub-processos em unidades que não
se interrelacionam. O resultado é um gerenciamento
fragmentado, sem dinamismo e que não consegue
visualizar e pensar o processo de arrecadação
como um todo.
Setores
beneficiados com incentivos diminuíram seu
recolhimento de ICMS.
Maior baixa
foi no setor de fumo.
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Se o Departamento da Receita Pública fosse
desmembrado em três partes (Departamento de
Tributação, Departamento de Arrecadação
e Departamento de Fiscalização), a
gerência desses processos seria otimizada.
Uma reorganização administrativa poderia
agilizar a entrada de recursos que seriam gerenciados
pelo Departamento de Arrecadação.
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Conseqüências - A situação
das finanças públicas, revelada pela
análise orçamentária dos primeiros
seis meses, indica, evidentemente, uma tendência
a que o governo enfrente problemas sérios
na administração de seu orçamento.
Até o ano passado, o Estado tinha brutais
déficits operacionais e orçamentários
que, como vimos, eram cobertos com recursos de privatização,
sendo que o serviço líquido da dívida,
apesar de negativo, não chegava a comprometer
o equilíbrio das finanças. A partir
de 1999, inicia-se um período de superávits
operacionais, porém o resultado orçamentário
mantém-se negativo, embora num patamar inferior,
em função do aumento do serviço
líquido da dívida.
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É importante ressaltar, também, que
o déficit orçamentário de R$
132,87 milhões está longe de refletir
a posição de caixa, já que
o governo assumiu com dívidas de curto prazo
(fornecedores, precatórios judiciais, repasses
a prefeituras etc) em torno de R$ 291 milhões
e com apenas R$ 108 milhões disponíveis.
Somando-se o resultado orçamentário
com as dívidas de curto prazo e deduzindo
os R$ 108 milhões disponíveis, o caixa
encontra-se com um déficit de R$ 316 milhões.
Para cobrir este déficit, a administração
fazendária vem fazendo uso, mensalmente,
do dinheiro do caixa único do Estado, conhecido
como SIAC. Ocorre que este dinheiro é contigenciado
e não pode ficar indefinidamente no negativo.
Estes fundos também não são
infinitos. Pelos cálculos do Sindaf, a manutenção
desta estratégia de financiamento do déficit
pode sobreviver somente até o final do ano,
gerando, a partir daí, um conjunto de problemas
inclusive para o pagamento da folha de pessoal.
Isso poderá ser evitado se o Executivo conseguir
repetir, no resto do ano, o resultado da arrecadação
do ICMS de julho que, conforme informações
da Secretaria da Fazenda, cresceu em torno de 4,2%
em relação ao mesmo período
do ano anterior.
A legislação
tributária e a forma como está organizada
a Secretaria da Fazenda contribuem para a estagnação
da receita. Solução poderá
vir com uma reforma profunda.
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Saídas - A ocorrência de déficit
orçamentário é uma constante
ao longo da história financeira do Rio Grande
do Sul. A diferença é que, agora,
os mecanismos utilizados para financiar este déficit
já não existem mais. Até 1990,
o déficit orçamentário foi
financiado através da política de
endividamento, auxiliada pelo processo inflacionário.
Entre 1991 e 1994, a inflação foi
a ferramenta fundamental utilizada para equilibrar
as finanças. Entre 1995 e 1998, voltou-se
à política de endividamento e agregou-se
recursos oriundos do processo de privatizações.
A partir de 1999, o Estado não possui capacidade
de endividamento tendo, ao contrário, que
pagar a dívida renegociada, e nem patrimônio
para ser privatizado. Da mesma forma, não
está no horizonte, pelo menos no curto prazo,
o retorno da inflação. Com isso, esgotaram-se
os paliativos que apenas empurravam o problema do
déficit para a frente.
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Considerando-se esta situação, a alternativa
mais viável é fazer crescer as receitas
próprias do Estado, particularmente o ICMS,
que representa mais de 80% dos recursos orçamentários.
Para isso, entretanto, O Executivo vai ter que enfrentar
a verdadeira caixa preta que significa a política
de incentivos e benefícios desenvolvidos
nos últimos anos. A própria legislação
tributária precisa ser revista, já
que contribui para que os processos sejam cada vez
mais complexos e de difícil acompanhamento
pelos gestores de finanças, facilitando,
inclusive, a impugnação às
ações de fiscalização
promovidas pela Secretaria da Fazenda.
Ao longo do tempo, a legislação do
ICMS foi incorporando um conjunto de alterações
que permanecem em vigor sem qualquer justificativa.
Os exemplos mais evidentes são a diminuição
de alíquotas ou de base de cálculo
e a concessão de crédito presumido
para um conjunto enorme de produtos, tais como os
refrigerantes, aços, produtos químicos
e eletrônicos.
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Recentemente, o governo decidiu incidir sobre este
problema, aumentando a alíquota das cervejas
e da TV a Cabo. Esta decisão, juntamente
com o aumento das tarifas públicas, teve
conseqüências positivas na receita de
julho, que aumentou cerca de 4,2% em relação
ao mesmo mês do ano passado. Se esta média
se mantiver nos próximos meses, já
que o combustível e outras tarifas públicas
devem sofrer reajustes, o governo poderá
enfrentar as suas dificuldades de caixa. Mas a timidez
das medidas tomadas até agora indica uma
certa incapacidade da administração
fazendária em pensar o problema da receita
na sua totalidade, o que pode comprometer o ajuste
global que precisa ser feito para que o Estado possa
ter condições de alavancar o desenvolvimento.

Fotos: Paulino Menezes e Ricardo Morais
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