As reformas que a sociedade
exige
Carlos Alberto Pacheco de Campos
Presidente do Sindaf
___No
início de 1996, já chamávamos a atenção
para a necessidade de acompanhar com cuidado os processos de reforma
que estavam sendo efetivados no âmbito federal e estadual. Mais
do que as posturas ideológicas dos contendores, para o funcionalismo
interessava saber qual seriam as repercussões concretas que as
modificações da estrutura do Estado teriam. Não
apenas para os interesses dos profissionais que atuam no Estado, mas,
sobretudo, para os que usam de seus serviços: a população
brasileira e gaúcha.
___Passados
quase dois anos, pode-se observar que as reformas que vêm sendo
realizadas apresentam características muito semelhantes. De um
lado pretendem redimensionar o Estado, abrindo mão de um conjunto
de funções que não são, por natureza, atribuições
públicas, mas que foram sendo historicamente agregadas à
estrutura do Estado; de outro objetivam enxugar a máquina estatal
e reduzir os gastos com pessoal a fim de viabilizar investimentos e
a ampliação dos serviços do Estado.
___Não
há como sustentar uma posição conservadora neste
tema. Há um consenso na sociedade sobre a necessidade de reformas
que qualifiquem a prestação dos serviços públicos,
que racionalizem os investimentos, que dinamizem os procedimentos burocráticos.
Mas existem, pelo menos, duas condições para que estas
reformas sejam efetivadas a partir da ótica do interesse público.
Primeiro, é preciso que os caminhos escolhidos sejam resultado
de um amplo debate que envolva não só partidos políticos,
mas a sociedade civil como um todo. Qualquer atitude que se assemelhe
a um 'rolo compressor', baseado em eventuais maiorias parlamentares,
não consolida uma hegemonia capaz de soldar um caminho de longo
prazo para a sociedade brasileira. Segundo, as reformas não podem
ser compreendidas apenas como uma necessidade conjuntural. O Estado
necessário precisa ser resultado e conseqüência de
um projeto nacional consensuado e orientar uma reorganização
de longo prazo. Ou seja, para se ter seriedade na reforma, é
preciso pensar com olhos nos próximos 30 ou 40 anos e não
nas próximas eleições.

Pacheco: "Servidor não
é responsável pela ineficiência do Estado"
___Com
a globalização, o Brasil precisa estar preparado para
interferir com qualidade no cenário internacional. E não
é possível fazer isso sem investimentos maciços
na qualificação de nossa estrutura educacional, sem investir
na formação de quadros, sem remodelar a estrutura de saúde,
sem aprimorar a formação e as condições
de trabalho do servidor. É preciso, pois, que as reformas tenham
conseqüências concretas na qualificação da
vida das pessoas.
___Infelizmente,
não é isso que temos visto no Congresso Nacional e mesmo
aqui em nosso Estado. A Reforma Administrativa, aprovada em primeiro
turno pelo Congresso, joga toda a responsabilidade pela ineficiência
da máquina no funcionalismo. O fim da estabilidade, o fim do
regime jurídico único e a reformulação dos
critérios de ingresso são formas impiedosas de submeter
o funcionário público à eventualidade do exercício
do poder político.
___Aqui no Estado, as importantes modificações
que vêm sendo realizadas na estrutura do Estado não estão
sendo devidamente discutidas com a sociedade.
___ Normalmente
enviadas em momentos de convocação extraordinária
dos deputados, nem sempre encontram o tempo necessário para esclarecimentos
e eventuais incorporações de modificações
qualificadoras. Mesmo a venda das ações da CRT, por exemplo,
foram usadas, em grande parte nos subsídios para a instalação
da montadora da GM, um investimento polêmico e com resultados
muito mais políticos do que propriamente econômicos e sociais.
___ Todos
concordamos sobre a necessidade de um Estado moderno, eficiente e eficaz.
Com base nisso, inclusive, o SINDAF já encaminhou um conjunto
de propostas e projetos para modificações nos procedimentos
e estruturas da Secretaria da Fazenda do Estado. Mas nos interessa,
também, um Estado capaz de agir a partir de uma lógica
pública, valorizando os seus funcionários e capacitando-os
para enfrentar os desafios de uma era muito mais complexa. Interessa-nos,
também, um Estado apto a interferir, quando necessário,
na dinâmica econômica para resguardar os interesses sociais.
Por fim, um Estado que oriente o caminho do desenvolvimento.